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Meus pitacos irresponsáveis sobre Cuba

Antes de tudo, tenho que avisar: estou longe de ser um especialista em Cuba. Tudo que você ler neste post pode ser besteira. Bem, só fui para lá duas vezes, com motivação bem turística: muita praia e uma pitada de curiosidade econômica. Em Havana, a patroa e eu fomos ao Restaurante La Guarida. (A reserva teve que ser feita com duas semanas de antecedência). Em um daqueles (muitos) prédios residenciais caindo aos pedaços (mesmo), uma porta do terceiro andar se abriu e nos deparamos com um um restaurante lotado comparável a qualquer um- bom - internacional. Ambiente estiloso e comida excelente. Imagino os milagres que os donos operavam para preservar a qualidade. (Infelizmente, os preços - em euros - também eram comparáveis aos bons restaurantes europeus.)
Eu ia fazer um post curto e otimista sobre a Perezcastro (copyright NPTO) e escrever sobre o restaurante, como exemplo do empreendedorismo e capacidade dos cubanos. Fui procurar pelo restaurante na web e o google instant search me sugeriu "La guarida closed". Closed?!?!?!
Umas googladas depois, eu encontrei duas explicações não-excludentes para o fechamento do restaurante no fim de 2009: 1) pressão do governo face ao seu sucesso ; 2) os donos foram receber um prêmio na Espanha, aproveitaram a deixa e nunca mais voltaram.
Seja como for, o fim do "La Guarida" mostra uma parte do problema que Cuba enfrentará na transição. Ao que parece, o combo chinês "controle-político-com-abertura-econômica" faz parte dos planos do Raúl Castro. Bem, ele não não tem a abundância de mão-de-obra dos chineses, nem o mercado consumidor dos EUA (ao menos inicialmente). Serviços e turismo serão a solução? Sei lá. A questão é que a abertura econômica é irreversível e completa. O Fidel tem que dizer algo como "É glorioso ficar rico" - ainda em vida - para a reforma tenha credibilidade. Se for aquela história de "um-passo-atrás-para-dois...blá-blá-blá" que já se viu no passado recente, babaus. Vai ser, claro, um avanço, mas longe da mudança necessária.
Outra coisa: alguns "especialistas" em Cuba não entendem bulhufas de Economia. São aquelas pessoas que acham que o número de empregos em uma economia é dado. Ok, as 178 ocupações que foram liberadas são algo cômicas ("Cartománticas", "Servicio de paseo de coches coloniales"), mas já dão para o gasto: os 500 mil demitidos arrumarão emprego rapidinho. Nenhuma grande coisa, mas - até para sobreviver- os cubanos (tal como os chineses) nunca deixaram de ser empreendedores.

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