17/01/2017

Atualização

Só para avisar que tomei vergonha e atualizei as abas "Livros", "Artigos", "Capítulos" e "TDs" aqui no blog.

05/01/2017

Pobres querem escola

Só hoje me toquei que o resultado da pesquisa do Colistete é semelhante ao observado por Bursztyn & Coffman (JPE, 2012). Eles conduziram um experimento em que famílias muito pobres estiveram dispostas a pagar para que a frequência de seus filhos à escola seja controlada.
Quer os analfabetos do estado de São Paulo do século XIX, quer os pobres da periferia de Brasília do XXI, todos lutaram para que seus filhos melhorem de vida. Ou seja, não há problema do lado da demanda por educação. Este é o lado bom da história. O lado ruim é que - mais de um século depois - a oferta de educação no Brasil continua sendo um problema.
(A propósito, o Leonardo Bursztyn também merece um perfil em revista. Afinal, não há muitos brasileiros, professores em Chicago, com carreira internacional de DJ e que tenham criado System of a Dilma.)

04/01/2017

Colistete e o atraso educacional brasileiro

Ficou ótima a matéria da Revista Piauí com o perfil do Renato Colistete e sobre sua tese de livre-docência (pdf).
Ele é um pesquisador sensacional, gente boa e orientador de 9 entre 10 dos novos pesquisadores em histórica econômica. Já estava no tempo de ele ter reconhecimento de um público mais amplo.
Aproveite e leia o seu blog . Quando a tese estiver on-line, eu aviso.

02/01/2017

Local multiplier of industrial employment: Brazilian mesoregions (2000-2010)

O texto do Guilherme Macedo (hoje doutorando no Birkbeck College) e meu foi publicado no mais recente número da Revista de Economia Política.

Local multiplier of industrial employment: Brazilian mesoregions (2000-2010) 
This paper estimates the local multiplier of manufacturing for Brazil (2000-2010). The method is based on Moretti (2010) and on Moretti and Thulin (2012), who estimated these multipliers for the U.S. and Sweden. The local multiplier of manufacturing estimates the impacts of employment changes in the industrial sectors on employment in the servicessectors, and the impact of changes in employment in the high-tech and low-tech tradable sectors on employment in the services sectors. These estimates help to assess the importance of industrial employment changes over local economies. We created instrumental variables,based on the shift-share method. The employment data cover 21 economic subsectors and 123 regions in 2000, 2005 and 2010. We have estimated that in the Brazilian mesoregions, for each new job in the tradable sectors, almost four jobs were created locally in the services sectors. Additionally, each job in the high-tech industrial sectors was estimated to create approximately seven jobs in the services sectors over the long term.

Ainda na editoria de autopromoção deslavada: lembro que tiramos o 2o. lugar do Prêmio CNI com uma versão anterior desse texto. 

08/12/2016

Em defesa da Fundação de Economia e Estatística

A biblioteca da FEE e suas publicações são essenciais para pesquisas sobre a economia e a história econômica do Rio Grande do Sul. Sua publicações sempre me foram utilíssimas e a biblioteca me traz ótimas memórias. Foi nos textos clássicos dos grandes Alonso e Bandeira - pesquisadores da FEE - que eu  e muitos outros aprendemos sobre as questões regionais do RS. E, hoje, há novas gerações de pesquisadores da FEE produzindo muita coisa interessante.
Torço mesmo que o -necessário  -ajuste fiscal no RS não leve à extinção da FEE. Seria uma pena. Podem dizer que minha visão é  tendenciosa, uma vez tenho muitos amigos lá (nenhum deles me pediu para escrever isso) e trabalho em instituição semelhante. Que seja.  Mesmo assim, seria um erro acabar com a FEE.

05/12/2016

O que fazer quando a variável de alocação é manipulada?

Um monte de papers tem usado as faixas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) como estratégia de identificação em regressões de descontinuidade. Eu já escrevi que isso não é nada recomendável, uma vez que é evidente  a manipulação da população dos pequenos municípios, especialmente a partir de 2000. Vejam aí o histograma da primeira divulgação do Censo de 2010. Fica claro que, sei lá como, os prefeitos conseguem que seus municípios pulem para a faixa superior do FPM. (Tem uma galera que faz  até escolhas com honestidade ,digamos, elástica para passar no teste de manipulação de McCrary).

Agora, um trabalho novo propõe um método que permite utilizar regressão com descontinuidade, mesmo quando há manipulação da variável de alocação. Parece muito bacana:

Bounds on Treatment Effects in Regression Discontinuity Designs under Manipulation of the Running Variable, with an Application to Unemployment Insurance in Brazil
 François Gerard, Miikka Rokkanen, Christoph Rothe
A key assumption in regression discontinuity analysis is that units cannot affect the value of their running variable through strategic behavior, or manipulation, in a way that leads to sorting on unobservable characteristics around the cutoff. Standard identification arguments break down if this condition is violated. This paper shows that treatment effects remain partially identified under weak assumptions on individuals' behavior in this case. We derive sharp bounds on causal parameters for both sharp and fuzzy designs, and show how additional structure can be used to further narrow the bounds. We use our methods to study the disincentive effect of unemployment insurance on (formal) reemployment in Brazil, where we find evidence of manipulation at an eligibility cutoff. Our bounds remain informative, despite the fact that manipulation has a sizable effect on our estimates of causal parameters.
Seria interessante aplicar essa técnica aos trabalhos antigos para ver se os resultados se mantêm.

30/11/2016

Teoria econômica do fazer m*rda


Por que um manifestante faz algo que evidentemente é contra seus objetivos declarados? Ontem opositores da PEC 55 atearam fogo em carros civis, destruíram pontos de ônibus, placas de sinalização, picharam o museu e tudo mais. Isso só contribui para afastar a opinião pública da sua causa.

Hipótese: o vândalo age para elevar seu status dentro do grupo. Como o status é vago, quebrar um banheiro químico sinaliza: "Vejam só! Eu sou mais comprometido que vocês!".E daí se isso afasta a população? O importante é a posição em relação aos seus pares. Se vocês xingam a polícia, eu jogo pedra. Se vocês jogam pedra, eu esfaqueio um policial... É a mesma corrida por status que faz, sei lá,  que exista carinhas que se endividam para ter o melhor carro do condomínio. Ou aquele que malha até ficar tão bombado que parece o boneco da Michelin.

No caso presente,  contudo, há um descompasso maior entre o resultado dessa corrida individual e o interesse do grupo. A analogia é com o membro do grupo criminoso que provoca a polícia, mesmo sabendo que isso pode gerar retaliação violenta. Ele quer subir de status mostrando que é marrento e comprometido e assume o risco de terminar no micro-ondas  ou no necrotério.

E as lideranças? Ontem, no trabalho, eu conseguia ouvir parte do que berrava o carro de som dos manifestantes. Era um caos. Ouvi: "Hoje é o dia da revolução"; "Vamos botar fogo nessa merda";"peguem pau, pedra e garrafa e vamos resistir". Outros, contudo, pediram tranquilidade e davam instruções para que os manifestantes se protegessem. Os que berravam gritos de guerra, também estavam nessa busca por status. O caos nas ordens parecia refletir a divergência entre os interesses dos manifestantes e os do grupo.

Essa hipótese explica a razão de vários dos vândalos não esconderem o totalmente o rosto ou mostrarem suas tatuagens. Ou seja, eles devem ter alguma possibilidade de serem identificados . E, como a teoria econômica ensina, o sinal tem que custar caro para ser importante. Se não houvesse risco de ser pego, ou mesmo criticado pelas lideranças do próprio movimento, não seria um sinal útil.
Os meus 474.343.248.392 leitores frequentes já perceberam que apliquei a mesma lógica da Teoria econômica de falar m*rda. A diferença aqui é que a divergência entre a "causa" do grupo e o comportamento individual é mais marcante.

28/11/2016

Cuba é mais rica que o Brasil?

Um texto da internet afirma (não vou incluir o link):
"O povo daquela ilha rochosa bloqueada é mais rico que o povo do continente Brasil. Essa é uma realidade chocante e geralmente desconhecida."
O autor recorre aos dados do World Bank que realmente mostram Cuba com um PIB per capita (PPP)  de US$20611 contra US$ 15893 do Brasil.
Obviamente essa estimativa está furada. É tão furada que a ONU - ao calcular o IDH- estimou outro valor que até os órgãos oficiais de Cuba acharam mais razoável:
The 2013 HDI value published in the 2014 Human Development Report was based on miscalculated GNI per capita in 2011 PPP dollars, as published in the World Bank (2014). A more realistic value, based on the model developed by HDRO and verified and accepted by Cuba’s National Statistics Office, is $7,222. The corresponding 2013 HDI value is 0.759 and the rank is 69th.
A mesma fonte coloca o Brasil como tendo renda per capita de US$ 15175. Ou seja, Cuba tem a metade da renda per capita brasileira. (Os dados do Maddison vão na mesma direção)
Estimar PIB PPP é sempre muito complicado e ainda mais em um país sem preços de mercado e com economia planificada. E durante décadas o PIB da URSS foi superestimado - não só pelas dificuldades técnicas- mas  porque era interesse dos russos e dos americanos que isso acontecesse.
Bem, se vocês encontrarem essa afirmação de que Cuba é mais rica que o Brasil, por favor, incluam o link para a outra estimativa da ONU.

Atualização:
1-Nesse ótimo post do Pseudoerasmus, descobri que a questão do PIB PPC de Cuba já havia sido discutida aqui.
2- Em evidente violação da regra dos dois desvios, eu polemizei na caixa de comentários do texto original. Acabei recebendo um email do autor (!?!?!?) dizendo que eu estava "monopolizando o site" e que o "debate se encerrou" e eu não deveria "dizer para ele o que fazer". Eu, hem?!?!

21/11/2016

Contra a metáfora doméstica na defesa do ajuste fiscal

Eu mesmo uso a analogia com os alunos. Para explicar a regra de ouro da Contabilidade Pública, eu digo "Não pode entrar no cheque especial para pagar o condomínio". Até aí, tudo bem.
Agora, nos debates sobre o ajuste fiscal, tem-se ouvido dos defensores da EC 55 :
"As finanças públicas são como a casa da gente. Não dá para gastar mais do que se ganha."
Eu acho uma má ideia recorrer a essa metáfora para o público.  Ora, como toda metáfora e como todo economista sabe, a analogia é imperfeita e a economia não é como a casa da gente. Até aí, também tudo bem. O motivo principal pelo qual sou contra a analogia é que ela é derrubada pelo contra argumento que o leigo entende com facilidade excessiva:
"Ah, mas a diferença é que na economia, o que o governo gasta determina o quanto ele próprio ganha. Quando o governo gasta, o dinheiro da economia gira, gera mais emprego, isso aumenta a arrecadação e - de lambuja- o Brasil será hexacampeão de futebol . "
Rejeitar esse argumento exige conhecimento e explicações bem acima da média do público. Tem-se que argumentar que o multiplicador não é assim tão grande,  discutir a elasticidade do PIB em relação ao gasto, o espaço fiscal e o problema dinâmico do endividamento. Ninguém tem paciência de ouvir tudo isso e é mais fácil cair no raciocínio confortável do keynesianismo vulgar.
Então, vamos defender o ajuste fiscal, mas - por favor - deixemos para lá a metáfora doméstica.
(Para ficar claro: eu sou a favor do ajuste fiscal. Só acho o argumento ruim para o debate público)

10/11/2016

Diversos