17/08/16

Cuba, um país desenvolvido (em 1957!)

Reproduzo aqui o post do Brad DeLong em que ele sintetiza o que todo mundo deveria saber. (Brad DeLong, à propósito,é um professor Berkeley de esquerda - para padrões americanos)
"The hideously depressing thing is that Cuba under Batista--Cuba in 1957--was a developed country. 
Cuba in 1957 had lower infant mortality than France, Belgium, West Germany, Israel, Japan, Austria, Italy, Spain, and Portugal. Cuba in 1957 had doctors and nurses: as many doctors and nurses per capita as the Netherlands, and more than Britain or Finland. Cuba in 1957 had as many vehicles per capita as Uruguay, Italy, or Portugal. Cuba in 1957 had 45 TVs per 1000 people--fifth highest in the world. Cuba today has fewer telephones per capita than it had TVs in 1957. 
You take a look at the standard Human Development Indicator variables--GDP per capita, infant mortality, education--and you try to throw together an HDI for Cuba in the late 1950s, and you come out in the range of Japan, Ireland, Italy, Spain, Israel. Today? Today the UN puts Cuba's HDI in the range of Lithuania, Trinidad, and Mexico. (And Carmelo Mesa-Lago thinks the UN's calculations are seriously flawed: that Cuba's right HDI peers today are places like China, Tunisia, Iran, and South Africa.) 
Thus I don't understand lefties who talk about the achievements of the Cuban Revolution: "...to have better health care, housing, education, and general social relations than virtually all other comparably developed countries." Yes, Cuba today has a GDP per capita level roughly that of--is "comparably developed"--Bolivia or Honduras or Zimbabwe, but given where Cuba was in 1957 we ought to be talking about how it is as developed as Italy or Spain."
Meu outro post sobre o assunto está aqui. Vale a pena também ler também o paper The Cuban Experiment: Measuring the Role of the 1959 Revolution on Economic Performance using the Synthetic Control Method por Ribeiro, Stein e Kang .

15/08/16

Neoliberal

Ótimo texto. No lugar de "neoliberal" seria melhor usar um termo menos desgastado. (Qual? Sei lá.) Concordo com todos os 9 pontos e acrescento um:
10- Deve haver uma rede de proteção social que defenda as pessoas dos riscos da vida. (Eu estou em boa companhia nesse ponto).
Via MargRev.

12/08/16

Schumpeter dando bronca no Samuelson

Dei um pulo em Duke para ler os arquivos do Douglass North sobre o Brasil. Mas é claro que tirei um tempo para ver a correspodência entre os grandes economistas do século XX. (Meu plano para a aposentadoria é ficar aqui só lendo fofoca. Tem muita coisa).
Vejam só essa carta que do Schumpeter que o Samuelson guardou:


11/08/16

Quem será?

No relato de viagem do Douglass North no Brasil (1961) ele conta que encontrou no Rio com uma economista brasileira que:
1- Tinha acabado de ser recuperar de um mental breakdown;
2- Era a principal economista mulher do Brasil;
3- Treinada nos EUA, ex-estudante do Benjamin Higgins;
4-  Achava que o Furtado era "brilhante, mas não sabia Economia";
Alguma suspeita? (Não deve ser a MC Tavares. Ela não estudou nos EUA)
PS. Ele diz que o primeiro nome é Maria.

Atualização: Respondido! o @rodrigolach descobriu uma Maria José Paiva que estudou em McGill e foi aluna do Higgins.  Muito obrigado.

10/08/16

Uma alternativa para o Fies

O que tem na Hungria, Austrália e Reino Unido? R: Crédito estudantil contingente à renda. A ideia é simples: o pagamento de alíquotas adicionais de imposto de renda para amortizar o crédito educativo. O Paulo Meyer Nascimento deu uma panorâmica legal desse instrumento no mundo e abre a discussão para o caso brasileiro.

09/08/16

O declínio do charque no RS: eu estava errado

O Thales acabou de publicar:

 Was it Uruguay or coffee? The causes of the beef jerky industry's decline in southern Brazil (1850 - 1889)
ABSTRACT: What caused the decline of beef jerky production in Brazil? The main sustenance for slaves, beef jerky was the most important industry in southern Brazil. Nevertheless, by 1850, producers were already worried that they could not compete with Uruguayan industry. Traditional interpretations attribute this decline to the differences in productivity between labor markets; indeed, Brazil utilized slave labor,whereas Uruguay had abolished slavery in 1842. Recent research also raises the possibility of a Brazilian "Dutch disease",which resulted from the coffee export boom. We test both hypotheses and argue that Brazilian production's decline was associated with structural changes in demand for low-quality meat. Trade protection policies created disincentives for Brazilian producers to increase productivity and diversify its cattle industry.
No texto "FHC errou? a economia da escravidão no Brasil meridional", eu defendi a ideia de que - ao contrário do que o FHC escreveu - a culpa pela decadência do charque não estava no uso de trabalho escravo. O problema seria o boom do café que valorizou o câmbio. Como o Brasil não era uma área monetária ótima, houve um tipo de Dutch Disease nas charqueadas.
Usando dados novos e econometria de séries temporais (e não o babláblá do meu texto), o Thales mostrou que eu (e o FHC também ) estávamos errados.  Nem a escravidão, nem o câmbio explicam o declínio do charque gaúcho. Foi um fenômeno global e no Uruguai houve maiores ganhos de produtividade e de qualidade.
Parabéns, Thales, ótimo texto!

05/08/16

Manual / Humildade científica

Humildade científica


Tal como eu, você não tem nem ideia de como uma fechadura funciona. Portanto, não seja arrogante a ponto de supor que compreendeu o funcionamento do universo. Você poderia gastar um bom tempo lendo os clássicos da epistemologia para entender que não se deve escrever "o trabalho provou" ou "demonstrei" em trabalhos empíricos. Existem boas razões filosóficas para isso e a história da ciência mostra que a arrogância está a um passo do ridículo.
Enfim, por enquanto, sem querer entrar em questões mais profundas, o melhor é ser (ou fingir ser) humilde nas suas conclusões. Escreva "o trabalho apresentou evidências em favor da hipótese", ou "as evidências sugerem" ou semelhantes. Por mais acachapantes que sejam as suas evidências, tente ser comedido nas conclusões. Arrogância, cedo demais na carreira, transforma-se em um sinal de imaturidade e desconhecimento das regras do jogo.
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

04/08/16

Manual / Gráficos

Gráficos


Os gráficos cumprem papéis distintos ao longo da pesquisa: no primeiro momento, eles são seus amigos para lhe ajudar a encontrar gremlins. Ou seja, aqueles erros de digitação ou coisas estranhas que costumam invadir os seus dados. Um histograma é o meu predileto. Se você observa picos esquisitos em alguns, vale a pena olhar com cuidado os dados-fonte. Às vezes, valores como 88888888888 ou 999999999 são usados para representar valores em branco ou não disponíveis. Um graficozinho inicial, ao revelar erros de importação, já me salvou de boas horas ou dias de trabalho. Quando você estiver confiante de que seu banco de dados está limpinho, é hora de entrar no processo exploratório de dados. Nessa fase, você busca padrões, relações entre variáveis, diferenças relevantes entre períodos ou qualquer coisa que possa ser importante para o seu problema de pesquisa. Ao longo de sua pesquisa, faça gráficos e os faça em quantidade. Guarde aqueles mais relevantes e que lhe dizem algo.
Finalmente, na hora de escrever o trabalho científico, considere os gráficos como um espaço nobre. As pessoas adoram ver figuras e já esperam que os seus gráficos apresentem o problema central, o seu argumento básico ou o resultado significativo. Raras imagens valem mais do que mil palavras. Só inclua os gráficos que contarem uma boa história. Tal como no texto, os gráficos devem transmitir a mensagem principal sem embromação, nem exigir esforço do leitor. Então, entre os gráficos que você acumulou ao longo da pesquisa, escolha os que tenham uma mensagem principal. Se estiver com dificuldade em identificar tal mensagem, talvez não deva incluir os gráficos. Lembre-se também de explicitar essa mensagem no texto do trabalho.
Supondo que você já sabe qual mensagem transmitir e o gráfico preliminar está feito, agora, é a hora de aparar as arestas virtuais. É impressionante que existam pessoas tão cuidadosas com a qualidade do seu texto, que passam horas em um parágrafo, mas que gastam apenas trinta segundos com o gráfico default do software, sem nenhuma reflexão. Capriche no visual, pense nas escalas e em tudo que possa facilitar a vida do leitor.
O primeiro passo é escolher que tipo de gráfico fazer.

Torta/Pizza

Quando usar? Use para representar variáveis categóricas em que o total some 100%. Só use valores que foram medidos no mesmo período de tempo.
Dicas: Esse é um dos mais utilizados pelos iniciantes, mas um dos menos recomendáveis.Evite ter fatias muito finas ou em número maior do que seis. O número excessivo de cores ou padrões dificulta a leitura correta do gráfico. Se necessário, agregue as categorias.

Barras

Quando usar? Variáveis medidas em com valores brutos (em R$ ou em toneladas, por exemplo).
Dicas: O valor bruto tem de ser o valor de interesse. Não use quando os dados originais são variações percentuais. Também não inclua muitas categorias de valores em um mesmo gráfico.

Linhas

Quando usar? O importante aqui é a variação e não o nível das variáveis.
Dicas: Passou de cinco linhas, especialmente se houver muitos cruzamentos, pense em outra forma de representação

Scatter (xy)

Quando usar? Ênfase na relação entre as variáveis x e y.
Dicas: Escolha bem o tamanho dos pontos. Quanto maior o número de observações, menor o tamanho. Havendo uma só categoria use pontos e não um daqueles indicadores que o Excel sugere. Nunca ligue os pontos. Identifique os outliers.
Coloque a variável independente no eixo X e a dependente no Y.

Orientações gerais

  • No Brasil, o padrão é usar títulos de gráficos bem caretas e frios. Algo do tipo: "Relação entre posse de armas por 100.000 habitantes e taxa de homicídios – dados municipais – Brasil -2010". Veja os nomes das tabelas do censo no site do IBGE para ver como eles fazem títulos muito precisos. Agora, nas apresentações, você pode ser mais relaxado e intitular o mesmo gráfico como "Mais armas, menos crimes". Em alguns meios acadêmicos, a tolerância com títulos mais relax é maior. Por via das dúvidas, seja mais conservador nos textos escritos do que nas apresentações.
  • Lembre-se dos rótulos nos eixos e as unidades de medida.
  • Prometa para mim que não vai usar o padrão do Excel 2003. Eu penso o quão infeliz era o funcionário da Microsoft que decidiu que o padrão de fundo do gráfico seria cinza e que a cor amarela nas linhas ficava bem. Rezemos pela sua alma. Nas versões posteriores, o problema ficou menos grave, mas ainda são bastante feios. Uma dica: na maior parte das áreas hard, o Excel é coisa de amador. Se o seu gráfico estiver com cara de Excel, o leitor imaginará que você não é um "profissa" do ramo. Qual software de gráficos usar então? Mais uma vez, tente ficar com a sua tribo e use aquele que os melhores da área usam.
  • Eu tenho problemas em ler gráficos em três dimensões (e muitos leitores também). A perspectiva torna mais difícil identificar as diferenças reais entre os valores. Evite 3D como se fosse a peste.
  • Sou contra o uso de gráfico para variações percentuais. Como você sabe, um aumento de 10% seguido por uma redução de 10% não nos leva de volta ao valor inicial. Um gráfico de barras ou de linhas pode dar essa impressão.
  • Sempre que possível, faça o gráfico já em escala de cinza, ou em um padrão preto e branco. Apenas poucas revistas têm impressão colorida e elas podem lhe pedir para transformar em preto e branco (ou mesmo cobrar de você por cada imagem colorida!). Não me venha com essa de dizer que precisa de cores para o seu gráfico. Se você tem de recorrer ao arco-íris é porque o gráfico está poluído. Simplifique.
  • Uso de escala logarítmica. Quando o importante for a variação da taxa de crescimento de uma valor é razoável usar uma escala logarítmica. Por exemplo, o aumento da população mundial, ao longo dos últimos séculos, foi tão grande que o gráfico com escala linear (não logarítmica) só mostra uma linha horizontal seguida de uma parede.
  • Para aprender o que não fazer, veja aqui os piores gráficos de trabalhos já publicados, com comentários em inglês.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

03/08/16

Manual / Graduação

Graduação


A vida na graduação

Dois extremos: você estudou em colégios privados e, agora, tem todo o tempo da vida para fazer a graduação em uma faculdade pública; ou você é um dos alunos trabalhadores que, depois de se aporrinhar no trabalho, cursa Contabilidade nas Faculdades Reunidas de Unistalda.
Se está na primeira categoria, você tem a expectativa de que a universidade será uma sequência de festas, churrascos, porres e sexo ocasional. Você não ficará decepcionado. A qualidade dos eventos varia de acordo com os cursos, mas você se divertirá mais do que nunca na sua vida. Tire os primeiros dois anos de curso para aproveitar, amadurecer e queimar os hormônios e os neurônios. A partir daí, já está na hora de tomar vergonha e pensar no futuro. Afinal, ao se formar, você será um desempregado.
Por sua vez, se você é o estudante-trabalhador-que-come-pastel-e-suco-de-dois-reais, a universidade também será o melhor período da sua vida. Você não poderá festear tanto, afinal, faltará energia e terá de estar apresentável no dia seguinte. Mas, de qualquer forma, o ambiente da universidade é bem mais interessante do que o do trabalho. Boa parte dos professores não é tão mala quanto o seu chefe, e você pode ter um diálogo mais aberto.

O segredo

Talvez você já tenha aprendido o segredo. Talvez não. Quando temos 18 anos, nosso cérebro ainda não está plenamente desenvolvido e nos achamos muito importantes. Na escola, você provavelmente tinha ao menos um professor preocupado com o seu aprendizado e que compartilhava os seus sucessos (e ocasionais fracassos) com os seus familiares. Tudo isso reforçava a ideia de que o seu aprendizado era mesmo importante.
Então, vou contar o doloroso segredo: os professores universitários não estão preocupados com você. Você é apenas mais um rosto, um aluno a mais na lista de chamada, uma prova a mais para corrigir. Só. Talvez por autodefesa, pois caso venham a se preocupar com o aprendizado de cada um, vão se frustrar. Então, eles só não querem que você crie problemas. Só isso já está bom.
Eu não quis ser rude com você. Nada pessoal. Você e eu estamos entre os 100 bilhões de pessoas que já viveram na Terra. Arredondando, você = nada. Claro que, para você, sua vida é o que importa, mas não espere que o professor pense o mesmo. Assim, quando você se achar muito "ixperto" por ter enganado o professor pelo trabalho que copiou ou pela assinatura falsificada na lista de chamada, não se iluda. Na verdade, o professor percebeu, mas não quis se incomodar. A razão é que no fundo ele não se importa com você. Entendeu o segredo?
O único jeito de você ser importante para seu professor é se tornar um ótimo aluno. Um daqueles que ele se orgulhará de ter tido como aluno. Bem, ele se vê um pouco em você e acha que será capaz de conduzir a sua carreira ao sucesso profissional. Isso vai dar um pouco de sentido na vida de um mestre que envelhece rapidamente.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

02/08/16

Manual / Google

Google


Tem certeza que você sabe usar o Google? Já vi gente fazendo buscas assim "quero todos os artigos bons sobre o assunto x". Dá dor no cérebro ver alguém fazendo isso.
Existem alguns recursos os quais eu duvido que você use e são fundamentais para você encontre aquele texto que o Periódicos Capes não tem. Basta colocar o título entre aspas e um "filetype:pdf", e o Google encontra o texto na página do autor ou de algum congresso. Isso resolve meus problemas uns 80% do tempo e poupa uma ida à biblioteca (se o texto for mesmo útil, recomendo que você obtenha a versão publicada do artigo).

Dicas de busca para o Google

  • Frase inteira. Basta colocar o trecho entre aspas para buscar o trecho:

 "estrutura social": Busca as páginas com o termo "estrutura social".
  • Busca exata. Impede o Google de tentar adivinhar o que você quer e de corrigir os seus erros de digitação:

"econômia": encontra todas as páginas em que ignorantes, analfabetos e toscos em geral escreveram "economia" com acentuação errada. Em outubro de 2012, resultava em 406 mil páginas.
  • Excluir palavra. Permite que você encontre todas as páginas ou documentos que não têm a palavra um "–" antes da palavra que deve ser excluída.

"classe social" – marketing: Busca as páginas com o termo "classe social", mas exclui as que possuam a palavra "marketing".
  • Buscar dentro de um site. Limita a busca ao site ou à parte do endereço do site.

"estrutura social" site: br: Busca o termo "estrutura social" em páginas brasileiras.
"estrutura social" site: gov.br: Busca o termo "estrutura social" em páginas do governo brasileiro.
  • Tipos de arquivo. Só considera na busca certo tipo de documento. Funciona com todo o tipo de documento. Permite que você busque apenas os arquivos Excel (XLSX), Word (DOCX), Powerpoint (PPTX) e Acrobat (PDF). A propósito, se você usar "ext:" também funciona.

"estrutura social" site:gov.br filetype:pdf: busca arquivos PDF que têm o termo "estrutura social", dentro dos sites do governo brasileiro.
  • Um termo ou outro.

"estrutura social" OR "classe social": Busca páginas que tenham o termo "estrutura social" ou "classe social"
  • Preencher uma lacuna.

"Segundo *, a estrutura social é ": Busca as páginas que contêm a expressão entre aspas, mas substitui o * por qualquer termo.
Suponha que você queira artigos PDF sobre "direito do trabalho", mas que não trate de "apostilas", nem "provas", nem que conste o site conjur.com.br. A busca fica:
"direito do trabalho" filetype:pdf -apostila -prova -site:conjur.com.br

Dicas para o Google Acadêmico:

O Google acadêmico é a coisa mais fantástica já inventada desde a Diet Pepsi. A busca avançada é superpoderosa, permitindo que você limite a busca por período ou mesmo periódico. Para usar esse recurso, clique na seta, logo ao lado da caixa de busca.
As dicas gerais do Google seguem válidas e você pode usar ainda os seguintes recursos:
  • Busca por nome de autor:

author: Flores Busca artigos cujo nome do autor é "Flores", mas não artigos sobre flores.
  • Busca por expressão no título.

intitle: Flores Busca artigos que têm a palavra "Flores" no título.
Antes de virar um ás na busca do Google Acadêmico, não se esqueça de ver a interação do mecanismo de busca com o Zotero.

01/08/16

Manual / Formatura

Formatura


A festa de formatura existe para satisfazer e quebrar as finanças dos seus pais. A regra geral é que a formatura é tão mais importante quanto menos esperado é o feito. Da mesma forma que o Fernando Alonso não comemora tanto a vitória quanto o Rubinho.
Nos últimos anos, há uma tendência a festas cada vez mais elaboradas e de gosto mais questionável. Em um ano, balões coloridos caem do teto, no ano seguinte, um helicóptero solta pétalas de rosa sobre os formandos. No final das contas, o dinheiro é seu - ou da sua família - e você pode gastar nas extravagâncias que quiser. Mas é uma boa ideia não se deixar levar pela competição com outras festas e pela última moda.
Qualquer um que faça o discurso em uma formatura, orador ou paraninfo, tem apenas uma obrigação: ser breve. A maior parte da plateia não está lá por você e sim pelos outros (Alguns apenas esperam o jantar e a festa). A maior parte das formaturas ocorre nos dias mais quentes do verão, e um discurso breve é mais memorável do que uma longa e enfadonha lembrança dos melhores momentos dos últimos quatro anos. Três páginas impressas no máximo, em ambos os casos.
Sobre o conteúdo dos discursos, é um mau momento para lembrar as falhas do curso. Por definição, na formatura, já é tarde demais para corrigir qualquer coisa e palavras duras só servem para pôr um tom amargo na festa.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

31/07/16

Manual / Estudo

Estudo


"Quem lê, não estuda", um professor meu dizia. Isso é a pura verdade, ficar só lendo a matéria não resolve nada. Você lê, lê, lê o mesmo parágrafo e a cabeça começa a viajar. Depois de algum tempo, você se autoengana que entendeu a matéria, mas não lembrará de nada em um par de horas. Esse princípio vale para todas as áreas, mas a tentação de só ler é maior naquelas em que dá para estudar deitado, ou seja, as ciências humanas.
Não fique só na leitura. Faça exercícios, explique a matéria para você mesmo, elabore resumos. Qualquer coisa é melhor do que só ler os textos da disciplina.
Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado

30/07/16

Manual / Frequência

Frequência


A maior parte das universidades brasileiras cobra presença dos alunos de graduação. Isso não acontece nas universidades dos EUA nem da Europa (Portugal, eu não sei. Mas Portugal fica perto, porém não exatamente na Europa).
Como professor, eu tenho sentimentos opostos sobre a presença. Claro, incomoda que, nas vésperas da prova, apareça um monte desconhecidos querendo aprender o conteúdo em dois dias. Isso ocorre quando a presença não é cobrada. Por sua vez, é um tanto peculiar que adultos sejam cobrados por estarem onde escolheram estar. Os argumentos para defender a cobrança de presença são estranhos. Quando comecei a dar aulas, um coordenador me disse que eu deveria cobrar presença porque "se um aluno cometer um homicídio, ele pode usar a sua lista de chamada como prova para escapar da cadeia". Ele falava sério.
Eu recomendo que você assista à aula. Se você for estudioso, será uma oportunidade de tirar dúvidas e perceber as nuanças do tema apresentado. Se você não for estudioso, acaba aprendendo algo, nem que seja por osmose.
Na sala de aula, não tente enganar o professor fazendo perguntas vazias para ganhar pontos por participação. Isso poderia funcionar nas aulas do primário, mas a maior parte dos professores é hábil em perceber quando um aluno não leu a matéria e só quer fingir que é ativo.

Manual de sobrevivência na universidade: da graduação ao pós-doutorado